Watfa Ramos,

 

pedagoga e poeta, casada e mãe de duas filhas, nasceu em 05 de abril e vivia em Campinas - SP,

cidade que amava mas que considerava ter se tornado muito violenta nos últimos anos e sentia saudades dos tempos de calma.

Adentrou o mundo da poesia pelas mãos do seu irmão, Faiçal, que a convidou para um grupo de poetas da internet,

o que a atraiu, já que durante toda a sua vida cultivara a boa leitura. Na rede, utilizava o nick: "Watfa".

Seu primeiro poema chamou-se "Morada", seguido de incontáveis outros textos, sempre belos e intensos, escritos com esmero impecável.

Em livros impressos, participou da antologia "uniVersos" da Gráfica e editora Ivan. Watfa, em todos os temas desenvolvidos,

sempre emprestava intensidade e paixão ao exposto, marcando positivamente os seus leitores.

Partiu desse mundo em janeiro/2010 deixando-nos infinitas saudades.

TerePenhabe

 

 



Salvação

Watfa

Cai o pano...
Desnuda-me.
Sorrateira, escorre a mentira.
A pele eriçada é o que sou.
O claro se torna negro;
a negritude sou eu agora.
Nada mais.
Nos interstícios dos meus órgãos
vazam embustes que me sustentavam,
ereta e fria, na negação da verdade.
Minha transparência revela-me inteira.
Através dela, vislumbra-se a salvação...

 

 

Rubra chuva
Watfa

Em languidez, à janela recostada,
mágoa roendo minha saudade,
sinto o morno vindo da calçada,
desse verão que dorme a cidade.

Lentos ponteiros, indolente dia,
grande penúria de atos e fatos
que me despertem da nostalgia,
e unam, (que em tiras), os tratos.

Calor que me envolve, num vagar,
penetra meus sentidos e tonteia...
Delírio!Vejo rubras flores pelo ar
que minha mão, ávida, campeia.

 

 


Injusta vitória
Watfa

No espectro da face humana há um risco obscuro:
mancha tênue, galhada; divide o rosto, qual muro.
De um lado o flamejar constante, que dele contrasta
a palidez do outro, morna e fria, que fere e castra!


Constituem as fibras do lado brilhante as estrelas.
N´outro lado, fosco, as maldades! Difícil crê-las!
Na luta constante, a contraposição dura esmaga
uma das partes. Não há alívio que se lhes traga.


Extremos surgem daí: as duas grossas crostas
que se debatem qual em fúria, duras, justapostas.
No dual da divisão, surge da luta febril, insana,
tanto o bem ou o mal que reina na raça humana.


Um lado se alastra incólume, reinando na sobrepujança:
O FOSCO!

(ainda sob o impacto da violência cometida
contra o garoto, lá no Rio)

 

 

 

Chamado
Watfa Ramos

Ú midos olhos, cintilam dores,
te seguirão, por onde fores!
Tua marca, fincada na terra,
indica teu destino e encerra
tortuosa angústia da procura.

´ alma, mergulhada na tortura
oca, pela tua doída distância,
evoca teu corpo e, em ânsia,
clama, roga, ainda à espera...

Tenho-te no peito!Quisera
cobrir-te em concha, ninho,
saindo ilesa deste torvelinho
que me arrasa, de tua recusa.

Seguirei, nesta busca difusa...
Hei de derramar em ti o amor
que, nas entranhas, em ardor,
clama por ti...


Meu logro

Watfa

Mergulhei no logro de tuas falsas falas.
Abateste-me ao chão nas muitas valas.
Frágil, fino fio que no tálamo nos unia
rompeu-se no esgarço do nosso dia-dia.

Peito truncado em disformes pedaços
tenta os encaixes dos erros crassos;
mas, se mostram inúteis as tentativas,
pois cada fatia não vê que te motivas...

Eis-me pois, aqui, em desconstrução,
arregimentando forças para a reação,
empunhando nas mãos o lenimento,
o que há de abrandar esse tormento.

" Vade retro" em teu inóspito caminho
fira teus pés na terra e, no torvelinho
de idéias vãs, que se imiscua o sentido
de tuas perdas! Atormente a ti o ruído!

 

 


A rosa airosa
Watfa

Esse odor que me invade,
aguçando meus sentidos,
desperta a minha verdade,
que, em fendas, eu olvido.

Exuberante concha da rosa,
que em círculos se afunila,
recolhe em folhas, airosa,
meus lamentos em clorofila.

No suave toque dos dedos,
as pétalas (aveludada maciez)
espantam ao longe meus medos
e, no rosto, perfumam a tez.

Recolho-me em pensamentos,
dela, no seu interior perfumado
e vivo ali, recolhida, momentos
da placidez de amores sonhados.

Suave rosa airosa!!!

 

Anjo de fogo

Watfa


Bater de asas invade os ares
No rastro, piscam feixes solares!
De fogo, é o Anjo que voa.
Flanar exibe som que ecoa.
Os riscos anunciam o arrebol.
Despede-se; pompa! Vai o sol!
Nos céus, algo tímida, vem a lua;
faixa, tira que surge inda nua.
O Anjo vai célere ao horizonte
Tarefa cumprida! Volta à fonte!
A troca já feita: dia e noite.
Ventos perpassam em açoite...

 

 


A caça

Watfa

Das pontas dos teus dedos, som que ecoa
vibra em tons as fibras do meu coração.
Em cio, rugindo qual brava, rasteira leoa,
vasculho a caça no tremer da vibração.

Sugando o ar que perfuma o ambiente,
feromônio que de ti desprende suave,
arrasto-me sobre o piano, modo silente;
que teu gosto melífluo em mim crave!

Guerreira incansável à espreita de ti,
tenho alagados meus olhos de amor.
O suor de minhas mãos, o que senti,
gotas úmidas do que sinto: o torpor...

Ao lado, juntos, somos gritos de prazer
Os rugidos, soando rubros pelos ares,
São melodias quentes de bem-querer
Alagando nosso templo, nossos altares...

Sumiço

Watfa

A veia sentada na porta
pitava sussegada sua paia!
O pito entrava na boca
dos dente, nas duas faia...
Cutuvêlo poiado nus jueio,
matutava nos fato da vida.
Ondé qui tava seu véio
qui si foi assim na partida,
sem neim dizê carqué coisa?...
Taria ele cansado da lida,
ou taria de encantu cum
arguma jovi rapariga?
Nus seus pensamento
ela percurava resposta...
Daí ela foi dizeno:
" Uai, essa vida é uma....."

Caminhada

Watfa


Percorro, na saudade que alucina,
caminhos tortuosos, seca lama.
Carrego, entre os dedos, minha sina
desdita, que escorre e se derrama.

Desejos, eu os guardo em acalanto,
na inútil esperança de um porvir,
perdido nos olhares do meu pranto
caído, em profusão, do meu sentir.

Estradas onde ando, com os pés nus,
à s pedras pontiagudas eu imploro
macias coberturas a que faço jus...

O verde ensolarado, o que desejo,
que venha , docemente, com o canoro
cantar doce de pássaros: solfejos!

 

 

Deuses são poetas!


Watfa Ramos


Os versos que lhes vão nas entranhas


jorram em luzes das pontas dos dedos!


Seres que os habitam descem à terra,


em ritmados versos, prenhes de beleza.


Á gua, fogo, ar e terra, elementos do belo!


Versos que vêm das Oceânidas, coroadas


de flores e pérolas ou divididas em peixe


e mulher são sopros dos deuses-poetas!


Vênus, Antígona, Jocasta ou Clitemnestra,


inspirações dos raios poéticos dos deuses


inundam as mentes dos bardos em prosa e verso.


Vem do Olimpo a poesia! Deuses são poetas!


 

Em nome d´amizade!
WATFA


Não vês o que me prende,o traçado?
Sufoco nessa solidão por todo lado.
Se recorro à tua leniência, bem sei,
temos os fortes laços, na mesma grei!

Irmãs somos nos nossos percalços;
juntas choramos, pulsos em falso!
As que te marcaram, tuas feridas,
eu as curei todas, em minhas lidas.

Cicatrizes, no abandono do amor,
as minhas, no ranço do meu rancor,
as trataste em benefício d´amizade
que sempre nos uniu... Irmandade!

Não me abandones na insólita prisão
que me rasga o peito, em comoção.
Impedem-me a saída grades lascadas
que, em minha cabeça, foram forjadas.

Dê-me tua mão!

 


Face e borboleta!
Watfa

Cerro meus olhos! Doces pensamentos
vêm de mansinho, colorindo minh´alma…
O dulçor que me invade, em momentos,
convida a borboleta, e mais me acalma.
Destarte, estou só na minha introspecção;
levo-me onde quero, afago a quem quero.
Os olhos cerrados me levam à meditação;
sonhos que me acolhem, eis o que espero!
Nada, nem ninguém, além de mim, em mim.
U´a estátua, cintilando por dentro em fulgor.
Bem-vindas as ilusões, odores de jasmim!
Eu me pertenço; cerro os olhos em louvor!
Ausculto meus pensamentos! Sustenidos!
Suaves cânticos me envolvem em ternura.
Soçobro em meus órgãos, ouço seus ruídos;
cadenciado ritmo segue à risca a partitura
Pálpebras unidas, desenrolam-se as cenas;
atos e fatos, os matizes, as formas eu defino.
Nomeio, ao meu gosto, da arte o mecenas…
Que virá a mim (louvores!) selar meu destino.
E sonho…